Segunda-feira, Novembro 14, 2011

Leituras atravessadas


Previsão menos musical de um futuro 

será possível um dia que os bancos de jardim
sejam levados para longe e nas praias muitos
corpos antigos desagúem, vindos de rios e de barcos
naufragados. será o tempo inteiro, completo, e na
televisão dir-se-á que os bancos faliram e que por
todo o mundo se sentem os efeitos do crash. será possível
que seja essa a altura em que a poesia fale
do crash e da falência dos bancos, no cinema passarão
fitas paradas de vida selvagem e durante duas horas
tentar-se-á incutir o amor pelo desabrochar de uma
planta. será o tempo de animais abandonados,
de papéis amarelos e vento nas ruas. um tempo
oblíquo, de muitos profetas que falam sem saber
que palavras usar.

Pedro Tiago, O comportamento das paisagens


Em que momento o crash da bolsa deixará de ser uma notícia que apreendemos através dos media para ser um acontecimento que se deixa perceber mal saímos à rua? Resposta: quando o dinheiro perder a sua função habitual.[...] O que já não funciona é o interface que se coloca entre os humanos e o que eles produzem: o “dinheiro”. Na modernidade, o dinheiro tornou-se a “mediação universal” (Marx). A crise confronta-nos com o paradoxo fundador da sociedade capitalista: a produção dos bens e serviços não é para ela um objectivo, mas apenas um meio. O único objectivo é a multiplicação do dinheiro, é investir um euro para conseguir dois. E, quando esse mecanismo entra em falha, é toda a produção “real” que sofre e pode mesmo bloquear completamente. Então, como o Tântalo do mito grego, encontramo-nos face a riquezas que, quando lhes queremos deitar a mão, elas fogem: porque não podemos “pagá-las”. Esta renúncia forçada foi sempre parte que coube aos pobres. Mas agora, situação inédita, isso poderá chegar a toda a sociedade, ou quase. A última palavra do mercado é assim a de nos deixar morrer de fome no meio dos alimentos empilhados por todo o lado, a apodrecer, mas em que ninguém deve tocar.

Anselm Jappe, suplemento Actual do Expresso,12/11/11.
Ler o artigo completo (em português br.) aqui.


O me! O life!

O me! O life! of the questions of these recurring, 
Of the endless trains of the faithless, of cities fill'd with the foolish, 
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, 
and who more faithless?) 
Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the 
struggle ever renew'd, 
Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see 
around me, 
Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined, 
The question, O me! so sad, recurring--What good amid these, O me, O life? 

Answer. 
That you are here--that life exists and identity, 
That the powerful play goes on, and you may contribute a verse. 
  
Walt Whitman, Leaves of grass.

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