Leio o bilhete carcomido. E entro
na escrita, na própria missiva: «Como sou ridículo:
procuro ainda um destino, uma travessia segura
entre planos distintos, um laço benigno que se estenda
e envolva os seres e criações. Não sorrio tanto,
o tabaco amarelou-me os dentes. A barriga cresce
e torna-me ainda menos funcional. Por vezes, encolho-a,
com vergonha, e ando assim para trás e para diante,
altivo e impondo ao meu corpo uma naturalidade
impossível. Junto à lareira (vejo-a apagada),
as fotografias lembram-me o rapaz esguio que fui,
o adulto determinado, o lento eclipse do olhar.
Devia aproximar-me e queimá-las de uma vez por todas,
não o faço porque receio que, sem elas, a memória
me reconstrua à escala desta condição transitória.
De qualquer modo, as razões para sorrir
são em menor número, pavimentaram a estrada
junto de minha casa, os carros passam ainda mais rápido,
quando a hora é a de cumprir um horário.
O tempo foge, e os homens deambulam pelo planeta,
ou somente pelo mesmo circuito exíguo, na busca
de imortalidade para o instante, embora esse instante
se lhes revele inútil em cada fragmento que o constitui.
E, desta forma, também eu me receio tantas vezes vão,
procurando um destino, uma travessia.»