Terça-feira, Maio 20, 2008

A felicidade paradoxal

"Ainda nao há muito tempo, os artistas e os homens de letras ambicionavam criar obras imortais; agora o que importa é ser-se «conhecido», aparecer nos media, vender um elevado número de produtos com esperança de vida limitada. A cultura clássica tinha como finalidade elevar o homem; as indústrias culturais pretendem distraí-lo."

Lipovetski, A Felicidade Paradoxal, Edições 70, 2007

Domingo, Maio 18, 2008

Apresentação na Feira do Livro da Benedita

Um dos poemas lidos:


Anestesia

Um dia
o homem olhou
o que restava da superfície terrestre
e prometeu não se perder na sua travessia
mas em cada deserto que decidiu enfrentar
encontrou um horizonte de promessas quebradas

a mulher sorriu
escondendo fantasmas nos espaços
entre os dentes e no céu da boca:
palavras mortas à deriva
pedaços de saliva enraivecida

beijaram-se
os dois
no confronto da noite
com uma paixão maior do que a força das navalhas
e depois de brindarem ao desespero
penetraram os destroços
abraçaram as sombras

renasceram anestesiados
na aflição contrária.


[in Pêndulo, Quasi Edições, 2007]

Sexta-feira, Maio 02, 2008

A corrida

Há quase 22 anos, em 15 de Setembro de 1986, recebi uma breve carta dactilografada do meu pai dizendo que, como prometido, me tinha comprado uma máquina de escrever para eu passar as minhas histórias a limpo. O meu pai era, por essa altura, emigrante e tinha perdido, uns meses antes, a hipótese de me ver ganhar a primeira corrida em que participei na minha aldeia. Eram poucos miúdos a concorrer, é preciso dizê-lo, e quase me estatelei junto à meta, pois houve um sujeito distraído que saiu de casa nesse instante final e não reparou que acabara de entrar no espaço delimitado de um grande evento desportivo.
Eu estava perto da meta, com um avanço considerável sobre os restantes atletas robustos de nove anos e com a emoção do meu primeiro triunfo já a instalar-se por todo o corpo. Porém, na imediata inevitabilidade do impacto, um calafrio trouxe-me abruptamente, e também pela primeira vez, a sensação de que um sucesso tão desejado e quase garantido poderia ficar confinado a uma realidade interior – jamais ganhando substância para o resto do mundo.
A esta distância desse momento de glória, julgo que o que mais me melindrou no esforço adicional de, num pulo acrobático, me esquivar do senhor desatento e de me transformar, por fracções de segundo, numa massa hipermaleável, não foi o facto de poder cair e perder a Corrida, mas sim a forte probabilidade de o segundo classificado, obviamente menos capaz, poder vir a ficar com a tão cobiçada medalha, sem a ter merecido. E isso era para mim, já nesse tempo, inconcebível, intolerável, melodramaticamente impossível de suportar.
Gosto de pensar que, alguns meses depois, passei uma história semelhante a esta, um pouco mais infantil e, claro está, mais verdadeira, pelo dentes metálicos da prometida máquina de escrever; que escrevi uma história cheia de equívocos morfossintácticos, assim como uma série de considerações sobre derrotas e vitórias, e que, por alguma razão, esse importante relato se perdeu definitivamente no sótão da casa, dando-me também o espaço necessário para outras histórias. Quase vinte e dois anos depois, no entanto, surge-me a medalha, física e concreta, entre tantas narrativas em dissolução.

Quinta-feira, Abril 17, 2008

As primeiras metáforas


Foto: Paulo Tavares

Houve um homem.
Chovia. O homem apontou
o céu e disse que as nuvens
choravam. Foi o primeiro.
As palavras eram ainda leves
e era, portanto, possível dizer
coisas belas e imprevistas
como um relâmpago.

Domingo, Abril 06, 2008

Poemas lidos no 2º Encontro de Poesia na Livraria Arquivo em Leiria


Foto: Jornal de Leiria, 10 de Abril de 2008
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Cerejeiras em flor

Voltei ontem
à terra e havia eucaliptos no lugar
dos pinheiros onde costumávamos
pendurar os baloiços.

Atravessei em ponto morto
a estrada principal, as casas velhas
mais velhas e as vivendas novas com crianças
desconhecidas à porta.
Dois miúdos brincavam perto da escola, agora
cercada por um gradeamento em ferro,
e um espasmo medular revelou-me de novo
a indistinta proximidade entre a inocência
e as prisões do homem.

Havia também
cerejeiras e pessegueiros em flor no quintal
da casa que já fora da nossa família.
Estudei as pessoas que lá vivem
e prometi reavê-la um dia.

Lembrei-me dos ciclos da natureza.
Quando chovia como ontem, no princípio da Primavera,
o quintal ficava repleto de laranjas e depois um verde molhado
escorria pelas encostas até bem perto de nós e um sopro
de juventude alastrava-se pela superfície da terra.

Hoje entrei no carro de manhã cedo
para voltar à cidade onde fervilham
as minhas fantasias de adulto, atravessei em ponto
morto a estrada principal, olhei as casas e as crianças,
e quando contornei a derradeira curva reparei
que levava no lugar do meu corpo
uma cerejeira em flor.

(in Pêndulo)


O palco dos dez mil poetas

[e seríamos também os vencidos da vida
mas sem uma palavra de revolta sem um grito sem um murro
na mesa sem um choque não esse tecnológico inevitável
sem um choque eléctrico colectivo no cérebro]

Faz-me falta uma meia dúzia de punhos fortes que agitem
este palco de sombras que digam não aos intelectuais instituídos
aos gostos instituídos aos prazeres instituídos às condutas instituídas
às dez mil tristezas instituídas faz-me falta um Antero ou alguém
do seu pulso que escreva e diga de facto alguma coisa
ou que não escreva mas fale e faça (porque às vezes é preciso levar
a espada à frente da pena) faz-me falta a mim pequeno escritor
de sítios recônditos a urgente geração do futuro.

[e se no final formos vencidos pela vida
pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos
para outros mais jovens nos tomarem o lugar]

(in Pêndulo)


Neste recanto oculto

Detenho-me neste recanto oculto do jardim do cerco,
de costas estrategicamente voltadas para o convento.
por todo o lado, a diversidade vegetativa
e a opulência reminiscente de gerações longínquas
levam-me a incorrer na repetição poética
de equacionar o tempo que passou.
detenho-me com Shelley e, ambos românticos,
partilhamos aquela ideia tão presente
de comunhão com a Natureza.
por todo o lado, um coro de rumores etéreos
recupera as mais diversas ruínas: homens caindo
ao chão, na neblina matinal, depois de duelos mortíferos;
mulheres serviçais passeando pequenos infantes
ao longo de tardes luminosas; jovens corpos amando
em sobressalto antes do ocaso; e o sonhador só
de todas as épocas procurando no céu nocturno
a fertilidade terrena.
detenho-me neste recanto oculto do jardim do cerco
e reconheço em cada momento, em cada imagem
que brota em redor, a materialização fugaz
daqueles que ainda somos sem o termos sido.

(inédito em livro)


Atravessando o Inverno

Finalmente,
atinjo a margem.
Acabo por beber a água.
Banho o corpo com as memórias
residuais. Sorrio o último
dos sorrisos que me reconheço.

Procurei durante a era glaciar
meio vivo
..............meio morto
um caminho ou uma ponte
para o rio onde se lavam as palavras.

Procurei
as crateras dos meteoritos,
a evidência dos terramotos,
o rasto da humanidade perdida.
Ao longo do Inverno rigoroso,
tentei encontrar em cada laje dos cemitérios
que atravessei o nome dos Antepassados,
o alento das origens, uma epígrafe para
a nova modernidade.

Mas os cemitérios
são agora campos de cultivo
e as campas estão vazias.

Nunca houve uma cratera
na ordem natural dos desastres.

Meio morto
............meio vivo
banho o peito na corrente
sempre inconstante do Letes
e bebo a água para que seja possível
voltar a lembrar.

O gelo voltará um dia,
restituindo os cadáveres e germinando
o invólucro dos significados.

(inédito em livro)

Sábado, Março 08, 2008

KIRIN – No meu tempo não se escreve um romance na primeira pessoa, não há uma obra de arte que indique um caminho – que seja quem recebe que sinta e que pense... E eu penso – será isso? Não assumir nada, deixar tudo solto? Será isso a arte?

Domingo, Março 02, 2008

"Quando em lutas partidárias escarneceram Garrett de 'poeta', e ele se desculpou de o ser, assinalou-se pela primeira vez entre nós, suponho, todo o futuro dramático do artista, como necessária consequência da desintegração moderna do homem. Ninguém até então se lembrara de descobrir assim, clamorosamente, na poesia, uma quase degradação humana. Ninguém acusou jamais um Camões, mesmo um Bocage, se bem me lembro, de serem 'poetas', nem eles portanto atiraram jamais à face de ninguém a posse desse destino (...)"

Vergílio Ferreira, Do Mundo Original