Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Saturday Sun (recuperado)

Ouvindo Nick Drake
numa tarde de chuva, enquanto não chegas
e a vida se repete, em crescendo,
pelos subúrbios de prédios sem jardins.

Sentado ao volante, como se
a um piano prestes a ruir
ou a abrir uma fenda nas densas nuvens.

O carro ainda ligado
e o limpa-pára-brisas funcionando
como um metrónomo, marcando o tempo
em ambas as direcções – melancolia
e música viva através de débeis contornos;
a feliz dissonância do quotidiano
e gente que canta dias luminosos
pouco antes de se extinguir.

O carro ligado,
o fluxo combustível do piano,
a música a terminar em dilúvios,

e tu que nunca mais chegas.



Domingo, Outubro 25, 2009

Skeuomorph 30 - Skeuomorph

Recupero, por fim, à luz de um pôr-do-sol
tardio, o fugaz e perene sentido da duração,
a improvável fenda em toda a estrutura,
e toda a essência do meu ser aqui, na missiva
em que vos respondo, minha mulher, meus netos,
antílopes e buganvílias, entre o tempo inexistente
e o tempo em que se inventam novas formas
de absurdo para a salvação de uma vida.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

S29 - Ocupação do Tempo

Leio o bilhete carcomido. E entro
na escrita, na própria missiva: «Como sou ridículo:
procuro ainda um destino, uma travessia segura
entre planos distintos, um laço benigno que se estenda
e envolva os seres e criações. Não sorrio tanto,
o tabaco amarelou-me os dentes. A barriga cresce
e torna-me ainda menos funcional. Por vezes, encolho-a,
com vergonha, e ando assim para trás e para diante,
altivo e impondo ao meu corpo uma naturalidade
impossível. Junto à lareira (vejo-a apagada),
as fotografias lembram-me o rapaz esguio que fui,
o adulto determinado, o lento eclipse do olhar.
Devia aproximar-me e queimá-las de uma vez por todas,
não o faço porque receio que, sem elas, a memória
me reconstrua à escala desta condição transitória.
De qualquer modo, as razões para sorrir
são em menor número, pavimentaram a estrada
junto de minha casa, os carros passam ainda mais rápido,
quando a hora é a de cumprir um horário.
O tempo foge, e os homens deambulam pelo planeta,
ou somente pelo mesmo circuito exíguo, na busca
de imortalidade para o instante, embora esse instante
se lhes revele inútil em cada fragmento que o constitui.
E, desta forma, também eu me receio tantas vezes vão,
procurando um destino, uma travessia.»

S28 - Ocupação do Espaço

O vagabundo dos territórios ao sul ignora-me.
Não traz quaisquer óculos magníficos, desses que tudo
transformam, mas passa como se o alpendre estivesse deserto.
Dentro de casa, a minha mulher dorme, tranquila como sempre,
ou talvez tenha já morrido numa noite que não chega.
Na mesa de fórmica, junto à balaustrada, repousa um bilhete.
Talvez anoiteça, os dispositivos mecânicos abandonam
o céu crepuscular e recolhem a um ermo onde, mais tarde,
serão trocados por outros, igualmente luminosos. O bilhete,
carcomido, não tem destinatário. A minha mulher dorme.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

S27 - Confronto

Do lado sul, dos territórios em ebulição,
um vagabundo avança, pária de si mesmo.
Traz nas feições a sombra de um continente inteiro,
e move-se como uma ilha lentamente à deriva.
Apoio a mão na caixa metálica junto às pernas,
pronto para libertar o animal divino
meio morto meio vivo.

Mas o vagabundo passa
e nada acontece.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

S26 - Densa floresta

Buscar a lucidez ou o equilíbrio
simbiótico na extensão de uma miragem,
e distinguir com nítida sensação de perda
fugazes melopeias, diamantes de Porter
no manto de Penélope. Fusão e síntese:
cantam cisnes em florestas por arder.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

S25 - Viagem

   Porque digo  regresso  como quem
   permanece ancorado, cada viagem
   é feita pela ordem inversa.

S24 - O calor do corpo, o frio intenso

   O calor do corpo, o frio intenso
   – impossível que o dia desemboque
   em algum género de ritual pacífico.

Se me levanto e me aproximo do panorama,
se os dedos consomem a paisagem, ou por ela
são absorvidos, se julgo ser importante partir,
por um pouco que seja, logo o alpendre me surge
como o único suporte neutro – o mundo cintila,
sem que nesse recorte quase nocturno irrompa
um genuíno albergue marítimo.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

S23 - Espaço central

Pelos últimos raios, a avenida alonga-se
como um deserto nórdico à luz da meia-noite.
Escuto o rumor excedentário dos ofícios diurnos,
o vento sibilando, trazendo o vaivém da memória
– curta e distante juventude –, e depois, de novo,
o ruído contraído da metrópole.

A avenida alonga-se, exausta de comércio,
de escritórios exíguos, de tão poucas crianças,
todas elas sem a devida circunstância
para caírem de uma árvore.

Imensurável espaço vazio:
entre as árvores e os parquímetros,
tantos relevos higienizados, tantos homens
deixados a meio.