A felicidade paradoxal
Lipovetski, A Felicidade Paradoxal, Edições 70, 2007
Publicado por
astrophil
às
6:25:00 PM
0
comentários
Um dos poemas lidos:
Anestesia
Um dia
o homem olhou
o que restava da superfície terrestre
e prometeu não se perder na sua travessia
mas em cada deserto que decidiu enfrentar
encontrou um horizonte de promessas quebradas
a mulher sorriu
escondendo fantasmas nos espaços
entre os dentes e no céu da boca:
palavras mortas à deriva
pedaços de saliva enraivecida
beijaram-se
os dois
no confronto da noite
com uma paixão maior do que a força das navalhas
e depois de brindarem ao desespero
penetraram os destroços
abraçaram as sombras
renasceram anestesiados
na aflição contrária.
[in Pêndulo, Quasi Edições, 2007]
Publicado por
astrophil
às
9:55:00 PM
1 comentários
Há quase 22 anos, em 15 de Setembro de 1986, recebi uma breve carta dactilografada do meu pai dizendo que, como prometido, me tinha comprado uma máquina de escrever para eu passar as minhas histórias a limpo. O meu pai era, por essa altura, emigrante e tinha perdido, uns meses antes, a hipótese de me ver ganhar a primeira corrida em que participei na minha aldeia. Eram poucos miúdos a concorrer, é preciso dizê-lo, e quase me estatelei junto à meta, pois houve um sujeito distraído que saiu de casa nesse instante final e não reparou que acabara de entrar no espaço delimitado de um grande evento desportivo.
Eu estava perto da meta, com um avanço considerável sobre os restantes atletas robustos de nove anos e com a emoção do meu primeiro triunfo já a instalar-se por todo o corpo. Porém, na imediata inevitabilidade do impacto, um calafrio trouxe-me abruptamente, e também pela primeira vez, a sensação de que um sucesso tão desejado e quase garantido poderia ficar confinado a uma realidade interior – jamais ganhando substância para o resto do mundo.
A esta distância desse momento de glória, julgo que o que mais me melindrou no esforço adicional de, num pulo acrobático, me esquivar do senhor desatento e de me transformar, por fracções de segundo, numa massa hipermaleável, não foi o facto de poder cair e perder a Corrida, mas sim a forte probabilidade de o segundo classificado, obviamente menos capaz, poder vir a ficar com a tão cobiçada medalha, sem a ter merecido. E isso era para mim, já nesse tempo, inconcebível, intolerável, melodramaticamente impossível de suportar.
Gosto de pensar que, alguns meses depois, passei uma história semelhante a esta, um pouco mais infantil e, claro está, mais verdadeira, pelo dentes metálicos da prometida máquina de escrever; que escrevi uma história cheia de equívocos morfossintácticos, assim como uma série de considerações sobre derrotas e vitórias, e que, por alguma razão, esse importante relato se perdeu definitivamente no sótão da casa, dando-me também o espaço necessário para outras histórias. Quase vinte e dois anos depois, no entanto, surge-me a medalha, física e concreta, entre tantas narrativas em dissolução.
Publicado por
astrophil
às
11:48:00 PM
0
comentários
Publicado por
astrophil
às
11:18:00 PM
5
comentários
Publicado por
astrophil
às
9:52:00 PM
3
comentários
Publicado por
astrophil
às
12:00:00 AM
2
comentários
Publicado por
astrophil
às
1:11:00 PM
1 comentários